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segunda-feira, 8 de junho de 2015

UMA ALMA QUE TEM SAUDADE... SEI LÁ DE QUÊ


Fonte da imagem: https://www.google.com.br/search?q=florbela+espanca+frases&es_sm=93&biw=1024&bih=673&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=exp2VbytC4u1yQTZ7YLoCg&sqi=2&ved=0CDMQsAQ#imgrc=m3Snx1gtv-XaeM%253A%3BvfyrplsAlI7Y1M%3Bhttps%253A%252F%252Fs-media-cache-ak0.pinimg.com%252F236x%252F74%252F0d%252F25%252F740d2544fc14e06a5b70348db3931fe3.jpg%3Bhttps%253A%252F%252Fwww.pinterest.com%252FbelinhaPortugal%252Fflorbela-espanca%252F%3B236%3B244

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

ANOITECER


A luz desmaia num fulgor d’aurora,diz-nos adeus religiosamente...
E eu que não creio em nada, sou mais crente do que em menina, um dia, o fui... outrora...

Não sei o que em mim ri, o que em mim chora, tenho bênçãos de amor pra toda a gente! E a minha alma, sombria e penitente Soluça no infinito desta hora!

Horas tristes que vão ao meu rosário... ó minha cruz de tão pesado lenho! Ó meu áspero e intérmino calvário!

E a esta hora tudo em mim revive: saudades de saudades que não tenho... sonhos que são os sonhos dos que eu tive...


Fonte do texto: do Livro "A mensageira das violetas" de Florbela Espanca

quarta-feira, 23 de abril de 2014

EU



Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ... 

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida! ...

Sou aquela que passa e ninguém vê ...
Sou a que chamam triste sem o ser ...
Sou a que chora sem saber porquê ...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

Fonte do texto: Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

ANSEIOS


Meu doido coração aonde vais,

No teu imenso anseio de liberdade?

Toma cautela com a realidade;

Meu pobre coração olha cais!

Deixa-te estar quietinho! Não amais

A doce quietação da soledade?

Tuas lindas quimeras irreais

Não valem o prazer duma saudade!

Tu chamas ao meu seio, negra prisão!...

Ai, vê lá bem, ó doido coração,

Não te deslumbre o brilho do luar!

Não estendas tuas asas para o longe...

Deixa-te estar quietinho, triste monge,

Na paz da tua cela, a soluçar!...


Fonte do texto: do Livro "A Mensageira das Violetas" de Florbela Espanca
Fonte da imagem: google

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Autora: Florbela Espanca - Charneca em Flor

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Desejos vãos

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza…
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras… essas… pisa-as toda a gente!…


Texto extraído do "Livro de Mágoas" de Florbela Espanca

domingo, 7 de agosto de 2011

Amar!!!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui…além…
Mais este e aquele, o outro e toda a gente….
Amar!Amar! E não amar ninguém!
Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi para cantar!
E se um dia hei-de ser pó,
cinza e nada que seja a minha noite uma alvorada,
que me saiba perder...para me encontrar..."


Fonte: Florbela Espanca em "A mensageira das violetas"

terça-feira, 26 de julho de 2011

Mistério d'amor

"Um mistério que trago dentro em mim
Ajuda-me, minh’alma a descobrir…
É um mistério de sonho e de luar
Que ora me faz chorar, ora sorrir!

Viemos tanto tempo tão amigos!
E sem que o teu olhar puro toldasse
A pureza do meu. E sem que um beijo
As nossas bocas rubras desfolhasse!

Mas um dia, uma tarde… houve um fulgor,
Um olhar que brilhou… e mansamente…
Ai, dize ó meu encanto, meu amor:

Porque foi que somente nessa tarde
Nos olhamos assim tão docemente
Num grande olhar d’amor e de saudade?!"


Autora: Florbela Espanca em "O livro d'ele"

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Lágrimas Ocultas

"Se me ponho a cismar em outras eras,
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida …
E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida !
E fico, pensativa, olhando o vago …
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim …
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma !
Ninguém as vê cair dentro de mim !

Poema extraído do "Livro de Mágoas" de Florbela Espanca

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Tortura

Tirar dentro do peito a emoção,
A lúcida verdade, o sentimento!
- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!…

Sonhar um verso d´alto pensamento,
E puro como um ritmo d´oração!
- E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento!…

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!

Florbela Espanca em "A mensageira das violetas"
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